Por ocasião da Semana Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho, que se foca na prevenção de Transtornos Musculoesqueléticos (TME), com o lema “Aliviar a carga”, abordamos aqui a cervicalgia, um dos tipos de TME mais comuns.
A dor no pescoço, muitas vezes inespecífica, é geralmente o resultado de causas mecânicas associadas a posturas inadequadas. Este tipo de dor nem sempre se deve a artrose. Na verdade, estudos científicos demonstram que não existe uma relação direta entre a artrose cervical e a dor cervical, apresentando a artrose a mesma incidência em pessoas com e sem dor.
Principais causas no contexto de trabalho
Na maioria dos casos a cervicalgia tem origem mecânica e multifatorial:
- Posturas mantidas durante longos períodos, sobretudo com o pescoço em flexão (ecrãs baixos, portáteis sem suporte, telemóvel).
- Postos de trabalho mal ajustados: monitor fora da linha dos olhos, cadeira sem apoio lombar, secretária demasiado alta ou baixa.
- Movimentos repetitivos e manipulação manual de cargas com rotação do tronco e do pescoço.
- Fatores psicossociais: stress, ritmo de trabalho elevado e pouca autonomia aumentam a tensão muscular cervical.
- Sedentarismo e ausência de pausas ativas ao longo do dia.
Sinais de alerta
Procure avaliação clínica se a dor durar mais de algumas semanas, se irradiar para o braço, se houver formigueiro, perda de força ou se surgir após um traumatismo. Na maioria das situações, porém, trata-se de dor benigna que melhora com movimento e ajustes ergonómicos.
Prevenção no posto de trabalho
- Ajuste o posto: topo do monitor ao nível dos olhos, a cerca de um braço de distância; antebraços apoiados; pés apoiados no chão ou em apoio.
- Alterne posturas a cada 30–45 minutos e faça pausas ativas curtas com mobilização cervical suave.
- Mantenha-se ativo: exercício regular de força e mobilidade é a medida com maior evidência na prevenção de recidivas.
- Reduza o "text neck": eleve o telemóvel em vez de baixar a cabeça e use suporte para o portátil.
- Cuide do sono e do stress: descanso insuficiente e tensão sustentada agravam os sintomas.
O que a empresa deve fazer
A prevenção dos transtornos musculoesqueléticos é uma obrigação legal do empregador ao abrigo da Lei n.º 102/2009, de 10 de setembro (regime jurídico da promoção da segurança e saúde no trabalho), alterada pela Lei n.º 3/2014, de 28 de janeiro: avaliação de riscos ergonómicos dos postos de trabalho, adaptação do trabalho à pessoa, vigilância da saúde e informação e formação dos trabalhadores.
Na prática, isto significa integrar no plano anual módulos de ergonomia, movimentação manual de cargas e trabalho com equipamentos dotados de visor — conteúdos que também contam para a formação contínua obrigatória.
Conclusão
A cervicalgia raramente resulta de uma "lesão grave" — resulta sobretudo de como e quanto tempo trabalhamos na mesma posição. Com postos bem ajustados, pausas ativas e formação adequada, é possível reduzir de forma significativa a dor, o absentismo e os custos associados.
