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Danos na Saúde pela Exposição a Crómio e Seus Compostos

Carla Correia

A exposição laboral ao crómio e seus compostos, seja na forma de pós, fumos ou névoas, por via inalatória, digestiva ou dérmica, representa um risco significativo para a saúde. Por esta razão, para além da correta identificação, avaliação, prevenção e proteção do risco, é imprescindível uma vigilância específica da saúde dos trabalhadores expostos.

Características Gerais do Crómio

O crómio é um metal branco-acinzentado, muito resistente ao desgaste. Apresenta três estados de valência: 2+, 3+ e 6+. Os derivados bivalentes são altamente instáveis, oxidando-se facilmente para derivados trivalentes. Contudo, as ligações hexavalentes são consideradas as mais perigosas.

Crómio VI (Hexavalente) – Compostos

É o mais tóxico.

  • Compostos solúveis: Cromato de amónio, de potássio, de sódio; dicromato de potássio, de sódio; trióxido de crómio (anidrido crómico ou ácido crómico).
  • Compostos não/pouco solúveis: Cromato de bário, de chumbo, de cálcio, de estrôncio, de zinco; cromato misto de zinco e cromato de potássio, entre outros.

Crómio III – Compostos

  • Acetato de crómio, óxido de crómio, ortofosfato de crómio, pirofosfato de crómio, sulfato de crómio, sulfureto de crómio, entre outros.

Principais Atividades com Risco de Exposição

De acordo com o enquadramento das doenças profissionais a legislação portuguesa, nomeadamente a Lista de Doenças Profissionais (aprovada pela Portaria n.º 23/2024, de 16 de janeiro), identifica diversas atividades com risco de exposição ao crómio, quer trivalente quer hexavalente, e aos seus compostos. A prevenção deve ser uma prioridade nestes contextos.

Algumas das atividades de risco incluem:

  • Preparação, utilização e manipulação de compostos de crómio, especialmente cromatos, dicromatos alcalinos e ácido crómico.
  • Fabrico de catalisadores, produtos químicos para curtumes e produtos de tratamento de madeira que contenham compostos de crómio.
  • Fabrico e utilização de pigmentos, corantes e tintas à base de compostos de crómio.
  • Serragem e maquinagem de madeira tratada com compostos de crómio.
  • Aplicação por projeção de tintas e vernizes que contenham crómio.
  • Curtimenta de peles com crómio.
  • Preparação de clichês de fotogravura por coloides bicromados.
  • Fabrico de fósforos.
  • Galvanoplastia e tratamento de superfícies metálicas com crómio.
  • Decapagem e limpeza de metais e vidros (ácido sulfocrómico ou ácido crómico).
  • Fabrico de cromatos alcalinos.
  • Litogravuras.
  • Fabrico de aços inoxidáveis.
  • Trabalhos que envolvem soldadura e oxicorte de aços inoxidáveis.
  • Fabrico de cimento e seus derivados.
  • Processamento de resíduos que contenham crómio.

Efeitos na Saúde

A exposição laboral ao crómio e seus derivados tem sido associada a efeitos na saúde de gravidade diversas. É crucial adotar medidas de segurança robustas nos locais de trabalho para minimizar a exposição e, consequentemente, reduzir o número de doenças associadas.

Os efeitos adversos durante a exposição laboral são causados principalmente pelos compostos hexavalentes (VI). Isto deve-se à maior facilidade de absorção dos compostos de crómio hexavalentes solúveis em água pela via pulmonar e à sua ação oxidante no trato respiratório. Nestes casos, pode ocorrer bronquite crónica, asma, hipertrofia da mucosa e, eventualmente, cancro. Nos trabalhadores expostos, observa-se uma acumulação de crómio nos pulmões, fígado e rins. Os compostos hexavalentes são os que apresentam a maior toxicidade.

O crómio é irritante e corrosivo para a pele e mucosas, aumenta a incidência de cancro do pulmão e seios perinasais e é um importante sensibilizante respiratório e cutâneo.

Os cromatos de zinco, cálcio, estrôncio e potássio são classificados como substâncias carcinogénicas do Grupo I pela IARC (Agência Internacional de Investigação do Cancro), o que significa que são comprovadamente cancerígenos para humanos. Outros compostos de crómio são classificados no Grupo 2, podendo ser cancerígenos para humanos.

Toxicidade Aguda

A ingestão de compostos hexavalentes de crómio, geralmente acidental, provoca um quadro gastrointestinal com vómitos, dores abdominais, diarreia e hemorragias intestinais.

Em alguns casos, pode levar à morte por choque cardiocirculatório. Se o paciente sobreviver, pode desenvolver insuficiência renal devido à necrose tubular aguda. Pode também causar falência hepática, alteração da coagulação ou hemólise intravascular.

Toxicidade Crónica

A exposição a compostos hexavalentes pode provocar:

  • Alterações dérmicas: Dermatite de contacto alérgica com lesões eritematosas ou vesicopapulosas (eczemas), muito pruriginosas, predominantes nas mãos e antebraços.
  • Dermatite de contacto irritativa: Úlceras de 5 a 10 mm, indolores e por vezes pruriginosas no dorso das mãos e dedos, conhecidas como em "ninho de pomba".
  • Alterações irritativas e atrofia da mucosa nasal: Na área do septo nasal, conhecida como "úlcera de Hajek", que pode levar à perfuração do septo.
  • Alterações broncopulmonares: Asma e bronquite crónica, com irritação faríngea, tosse, dor retroesternal e broncospasmo por efeito irritativo e/ou sensibilizante (alérgico).
  • O crómio VI é cancerígeno pulmonar e dos seios perinasais (alguns pigmentos com muito baixa solubilidade, como cromatos de cálcio, estrôncio e zinco).
  • Hepatotoxicidade: Icterícia, colúria, hipocolia ou acolia, hepatomegalia.
  • Insuficiência renal.

Trabalhadores Especialmente Sensíveis

A avaliação deve ser individualizada, considerando a existência de historial de anemia, insuficiência renal ligeira, perturbações respiratórias crónicas e dermopatias. Em situações clínicas onde possa haver dificuldade no diagnóstico diferencial entre a doença de base e os potenciais efeitos da exposição a estas substâncias, a exposição deve ser temporariamente evitada.

A Importância da Formação Profissional Obrigatória

O Código do Trabalho português, no seu Artigo 131.º, estabelece a obrigatoriedade da formação profissional contínua para os trabalhadores, num mínimo de 40 horas anuais. Esta formação é crucial para a prevenção de riscos laborais, incluindo a exposição a substâncias perigosas como o crómio. Através de formação adequada, os trabalhadores podem adquirir os conhecimentos e competências necessários para identificar os riscos, utilizar corretamente os equipamentos de proteção individual e coletiva, e seguir os protocolos de segurança, garantindo assim um ambiente de trabalho mais seguro e minimizando os danos para a saúde.